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Old 08-03-2010, 20:31   #1
Proprius Dominor
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Default A guerra dos lobos

Matéria publicada na revista National Geographic do Brasil de março de 2010. http://viajeaqui.abril.com.br/nation...a-534852.shtml

A guerra dos lobos

As alcateias estão de volta, emocionando os amantes da vida selvagem. Mas lobos são lobos, matam gados e alces. Muita gente está brava no oeste americano. A velha luta em torno de terra e comida voltou com tudo.

Por Douglas H. Chadwick
Foto de Jeff Vanuga

Os lobos escapam da área protegida de Yellowstone. A migração invernal conduz a alcateia de Eashakie através da cordilheira de Absaroka, no Wyoming, em busca de comida.

Os lobos, se você pensar bem, se parecem muito com a gente.

Eles são poderosos, agressivos, territoriais e predadores. Eles são espertos, curiosos, cooperativos, leais e adaptáveis. Eles exercem profunda influência nos ecossistemas que habitam.

Contudo, temos problemas com os lobos. Talvez não sintamos o mesmo pelo simpático lobo mau ou por aquele ser de olhar carinhoso que nos segue pela casa, seu parente - o cão. Ou talvez seja porque os lobos-cinzentos são os mais disseminados entre os mamíferos terrestres, depois dos seres humanos e seus rebanhos de animais domesticados, sendo que, no hemisfério Norte, são nossos mais diretos concorrentes a carne.

Sejam quais forem as razões, homens e lobos estão em guerra. É uma antiga disputa por território e comida entre os clãs dos lupinos e dos seres humanos, travada em campos de batalha nos estados americanos das Montanhas Rochosas.

Muitos acreditavam que a guerra tinha acabado. Caçados sem trégua, pegos em armadilhas e envenenados até mesmo nas reservas naturais, os lobos-cinzentos tinham sumido do oeste lá pelos anos 1930. Em 1974, quando o Canis lupus foi declarado espécie sob risco de extinção, a população do lobo-cinzento viu-se confinada a um canto ao norte de Minnesota e no Parque Nacional Ilha Royale, em Michigan.

Daí, em meados dos anos 1980, um punhado de lobos marcharam para o sul, desde o Canadá. Dois se estabeleceram nas pradarias ocultas do Glacier, gerando cinco filhotes, em 1986. Biólogos que se esfalfavam para rastrear os recém-chegados os apelidaram de "alcateia Mágica", devido à maneira com que eles pareciam se esvanecer no ar e ressurgir feito fiapo de bruma.

A bando cresceu e logo se dividiu em dois, depois em três, a maioria mantendo-se dentro do parque. Alguns animais se desgarraram e dispersaram-se pelas florestas adjacentes. Então, de repente, lá estava um casal acoitado em um rancho a 150 quilômetros ao sul do Glacier e a 50 quilômetros da fronteira de Idaho. As pessoas passaram a relatar a presença de lobos tanto em Idaho quanto no norte do Wyoming. Mas ainda não havia provas de que esses lobos fossem nada além de viajantes de passagem. Ainda não.

Em 1995 e 1996, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos capturou lobos no Canadá e libertou-os no Parque Nacional de Yellowstone, de 890 mil hectares, e nas áreas silvestres de Idaho. A ação federal, sem precedentes, deslanchou tal erupção de esperanças, medos, ressentimentos, processos judiciais e manchetes na imprensa, que a maioria das pessoas pensa ter sido esse o começo do retorno do lobo ao oeste. Não foi assim, mas aquelas reinserções funcionaram como um rabo de foguete. As populações de lobos aumentaram e a guerra contra eles experimentou nova escalada.

Ao longo de 2008, os agentes envolvidos com a vida selvagem confirmaram 569 mortes de gado bovino e caprino atribuídas aos lobos. Tal cifra somava menos que 1% das mortes de animais de criação na região, mas o prejuízo nunca se distribui de forma igualitária. No mesmo ano, 264 lobos foram mortos por atacar o gado. É um número alto, mas que deve ser confrontado com uma população de lobos que atingiu agora cerca de 1,6 mil indivíduos a vagar pela região, agrupados em mais de 200 alcateias. O oeste está ficando mais selvagem a cada hora que passa.

Os entusiastas ambientalistas e os turistas não poderiam estar mais felizes. Só em Yellowstone, dezenas de milhares de pessoas vêm todos os anos observar os lobos, adicionando algo como 35 milhões de dólares à economia local. Os cientistas estão documentando as mudanças ecológicas ligadas ao retorno desse predador de primeira linha, fato que tem o potencial de restaurar o equilíbrio nas áreas silvestres, tornando-as mais estáveis e biologicamente diversas.

Por outro lado, tem gente que se diz insegura ao levar a família ao mato. Os caçadores esportivos também reclamam. Para muitos, a decoração de interiores inclui cabeça ou chifres de alce e cervo. E os lobos são pintados como máquinas mortíferas de quatro patas a devastar as populações de animais caçáveis. A turma fala na surdina em resolver por conta própria o problema.

Em maio de 2009, a espécie foi declarada recuperada no norte das Montanhas Rochosas, transferindo a responsabilidade pelos lobos para Montana e Idaho. Ambos os estados estabeleceram cotas sobre a primeira caça legal ao lobo de que ambos os estados tinham memória - em 75 anos no caso de Montana e em 220 no de Idaho. "É espantoso - de uma única alcateia sob risco de extinção pulamos para um excedente", diz Jim Williams, do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Montana. "Essa é a mais impactante história de sucesso na Lei das Espécies Ameaçadas que se possa imaginar." Talvez.

Após uma decisão federal anterior, que tirou os lobos do oeste da lista, em 2008, o Wyoming, em essência, definiu os animais como uma peste, permitindo sua ilimitada matança e captura em armadilhas. Em função disso, uma ação judicial forçou o serviço de vida selvagem a colocar de forma temporária os lobos de volta à lista de animais ameaçados. Nesse ínterim, uma coalizão de 14 ONGs lideradas pela Earthjustice processa o governo federal americano para que torne a proteger todos os lobos até que os estados do oeste desenvolvam uma estratégia conservacionista, e que inclua áreas protegidas nas quais os lobos possam viver em alcateias que não sejam abatidas a tiros.

John e Rae Herman tocam 800 cabeças de gado na área oeste das Hot Springs de Montana. Eles cresceram na era dourada para os amantes do bucolismo, em vales e encostas cobertas de florestas - com todos os grandes predadores nativos varridos da paisagem. "Costumávamos computar de três a cinco bezerros perdidos cada vez que arrebanhávamos o gado", conta John. "Agora são uns 25. Sete morreram por lobos, confirmados de maneira a sermos reembolsados."

O problema é que, se o fazendeiro não topar logo com a carcaça, os devoradores de carniça podem destruir todas as evidências. Em algumas áreas, os casos de fato protagonizados por lobos constituem, em média, sete mortes em cada uma que é possível ser provada. Se não há evidência, não há compensação financeira. E animais mortos são apenas parte do prejuízo. A rés assediada por lobos perde, em dada estação, de 14 a 22 quilos. E os efeitos hormonais do estresse se fazem sentir. "Das 85 novilhas grávidas na última primavera, 60 abortaram", afirma John.

Gado com ferimentos nas pernas, ou infecções deles derivadas, devido a perseguições dos lobos, torna-se incomerciável. Depois de atritos com lobos, as vacas tornam-se irritadiças e superprotetoras de seus bezerros. Os Herman não são os únicos a dizer que fica mais difícil arrebanhar esse gado nos currais - nem pensar em usar seus cães. Além disso, se você levar esse gado aos bons pastos no verão seguinte, os animais podem não querer ficar ali porque há lobos rondando as florestas nas terras mais altas.

Os fazendeiros da cooperativa Blackfoot Challenge estão testando um programa de vigilância territorial. Estou ali em patrulha com o cavaleiro solitário em pessoa, Peter Brown, que pode viajar em sua picape, motocicleta ou a pé. Ele monitora as cercanias das alcateias sempre de olho no gado, e relata todos os dias o que vê aos fazendeiros, que, informados, podem deslocar seus rebanhos para pastagens mais seguras ou ficar mais atentos. Cercas elétricas agora circundam os espaços destinados a parir e criar bezerros em muitas das áreas de risco. Para advertir de maneira visual os lobos para que se afastem de outras pastagens, Brown às vezes lança mão da velha técnica europeia conhecida como fladry, na qual se estende um fio com bandeirolas de cores vivas ao longo das cercas.

Enquanto palmilhamos as terras baixas em meio à neve de outubro, o olhar de Brown é atraído por corvos - seus guias mais confiáveis para localizar uma carcaça. Nesse caso, os pássaros estão apenas se banqueteando com as vísceras de um alce abatido por um caçador. O mesmo faz um lobo-preto, membro da alcateia da montanha Elevation. Ainda assim, quatro cervos pastam em boa paz no outro lado de uma cerca, a exemplo de dúzias de bovinos 180 metros adiante.

"O comportamento de um rebanho é o nosso sistema de alarme", observa Brown. "Fico atento ao gado que se agrupa ou corre ou ainda ao que se põe a espiar em torno, alerta e mugindo. Também fico de olho em animais doentes que possam atrair predadores. Acho que só de me mover pela área já inibo os lobos com a minha presença, afastando-os dos animais de criação. Os lobos estão aprendendo e se adaptando tanto quanto nós. Além disso, temos boas populações de presas naturais aqui. Já vi lobos se meterem no meio do rebanho para perseguir cervos."

Os fazendeiros costumavam abandonar os animais que morriam de doenças, problemas no parto e acidentes, deixando-os no pasto ou juntando-os em "pilhas de ossos", como são chamadas. Mas, "à medida que os predadores foram se recompondo, as carcaças acabavam atraindo-os para encrencas", explica o biólogo Seth Wilson. "Agora coletamos as carcaças e as levamos para longe. É uma das mais simples medidas para se reduzir os conflitos com ursos e lobos."

A questão não é saber como se livrar dos lobos, mas como coexistir com eles. O fazendeiro David Mannix é quem diz: "Precisamos nos dar conta de que a população dos Estados Unidos, em geral, quer os lobos. Essa gente é também a que consome a nossa carne. Não é boa ideia dizer a nossos consumidores que eles não sabem o que estão fazendo. Então, em vez de lutar para que tudo volte a ser como antes, estamos testando coisas como patrulhamento territorial."

Quando ouviram os primeiros uivos dos lobos em Yellowstone, os alces e os seres humanos fincaram pé em seu território, como se ainda estivessem lidando com coiotes. Mau negócio. Yellowstone possui hoje metade dos alces que tinha 15 anos atrás. Todavia, a maioria dos levantamentos mostra que sua população havia inchado demais com a deterioração de seu hábitat. Pouco depois de matar os últimos lobos de Yellowstone, em 1926, as autoridades do parque abatiam alces aos milhares. Mas esses animas continuaram a se reproduzir e a pastar em escala excessiva dentro de ambientes essenciais, criando uma situação antinatural perpétua justo para um parque voltado para a preservação da natureza.

Dispondo de quase ilimitada oferta de carne, os novos lobos de Yellowstone se multiplicaram. Mas a contagem caiu de forma abrupta em 2005. Voltou a crescer, atingindo 171 indivíduos em 2007, para depois se reduzir a 124 lá pelo fim de 2008. Doug Smith, chefe do Projeto Lobo de Yellowstone, localizou os poucos casais reprodutores a partir de 2000. "Temos uma população declinante de lobos", diz ele. "Os números nunca atingiram os níveis que esperávamos com base na disponibilidade de presas. Isso sugere que, tão logo os lobos atingem certa densidade demográfica, começa a haver uma regulação social no tamanho de sua população."

Os enfrentamentos com as pessoas não constituem o único conflito travado pelos lobos. A alcateia do pico Druid, em Yellowstone, estabeleceu seu território em 1996. A pátria a céu aberto que eles demandam em ambos os lados do vale do rio Lamar, no Wyoming, é cortada por uma das principais estradas do parque. Em uma manhã de fim de outono, a temperatura está a -15°C. Uma película de geada recobre o focinho dos bisões logo abaixo de um dos pontos de encontro favoritos dos lobos. Alces pastam na mesma encosta enquanto dois coiotes fuçam os despojos de um filhote de alce à beira do rio. Não vislumbro lobos, mas Laurie Lyman, ex-professora que se mudou da Califórnia para estar perto dos lobos e os observa há vários anos, abaixou seu binóculo para me contar sobre os animais que ela viu no dia anterior.

Dois lobos da Druid - uma fêmea, a número 571, e seu irmão menor, denominado Chama Triangular por causa da mancha branca no peito - caminhavam ao longo do rio quando surgiram três invasores da nova alcateia de Hurricane Mesa. Em menor número, a dupla recuou, mas os invasores alcançaram a 571. Por quatro vezes eles a prostraram de barriga para cima. No fim, dois lobos a manietaram em cada extremidade enquanto o terceiro e maior deles mordia o peito, lacerando sua carne com os dentes. "Foi aí que o Chama Triangular pulou em cima", rememora Laurie. "Ele voltou para resgatá-la, e a 571 pôde escapar pelo rio. Quando seu irmão enfim a encontrou, ele mancava e ela sangrava pelas feridas."

Ao longo de 2008, Yellowstone teve duas vezes mais lobos mortos por outros lobos que no ano anterior. A cinomose atingiu a população em 1999, 2000 e 2005. A parvovirose, mais uma doença mortal, foi detectada. A exemplo de outras alcateias, a do pico Druid está sofrendo de perda de pelagem devido a uma epidemia de sarna.

A diminuição da superabundância de presas é outra questão, segundo Doug Smith. Ainda existem perto de 10 mil alces invernando em Yellowstone, e talvez o dobro disso passando o verão no parque. "Mas os lobos são caçadores bastante seletivos", afirma ele. "O que conta para eles é o volume de presas vulneráveis."

Da mesma forma que a experiência com lobos pode transformar o gado em animais não tão domésticos, os alces perseguidos por alcateias tornam-se presas menos vulneráveis. Eles ficam mais vigilantes e se mantêm em movimento constante. Na era sem lobos, os rebanhos acampavam em seus "restaurantes" preferidos durante o inverno, forrando o bucho de álamos, salgueiros e choupos, todos ainda jovens, de modo que os caules cresciam prejudicados e mirrados feito bonsais. Libertadas de tamanha voragem, as jovens plantas agora se desenvolvem até formar viçosos arvoredos. Mais pássaros canoros encontram hábitats para formar seus ninhos à sombra da folhagem. Ao longo dos cursos d’água, vigorosos salgueiros e choupos enraizados ajudam a estabilizar as barrancas. Mais insetos caem dos caules pendentes, alimentando peixes e anfíbios. Castores encontram gravetos nutritivos e galhos à vontade para o sustento de suas colônias.

Inspecionando a enorme cordilheira ao norte, onde a maioria dos alces do parque passa o inverno, Doug Smith descobrira apenas uma colônia de castores em 1996. Em 2009, ele registrou 12. Poços e alagados que se formam atrás das represas criam um hábitat para o alce, o rato-almiscarado, o vison-americano, as aves aquáticas e uma plêiade de outras formas de vida selvagem. Depois que os lobos ressurgiram, os pumas, que tinham começado a esquadrinhar os vales, retiraram-se para os íngremes terrenos rochosos que eles habitam. Os lobos mataram quase metade da população de coiotes, que vivem agora em grupos dentro de territórios reduzidos ou vagabundeando solitários. Sofrendo menos competição dos alces por gramíneas, os bisões devem estar se dando bem melhor que antes.

De uma única nova força predatória na paisagem resulta o reequilíbrio que se alastra até afetar os micróbios no solo. Os biólogos definem as mudanças desde o topo da cadeia alimentar como um efeito cascata trófico. Num aceno de reconhecimento aos fatores comportamentais em jogo, outros falam em "ecologia do medo".

Craig Jourdonnais é biólogo do departamento de animais caçáveis do vale Bitterroot, em Montana. Até há pouco tempo, segundo ele, a maioria das reclamações sobre animais selvagens dizia respeito a alces atacando montes de feno e cervos danificando plantações e jardins, além de ser um perigo nas estradas. "Agora, temos de dez a 12 alcateias reunindo no mínimo de 45 a 60 lobos. Temos também 14 mil caçadores vindo todos os anos para registrar os animais caçados." As principais reclamações que ele ouve hoje têm a ver com o excesso de lobos na área a aniquilar alces e cervos. "Estou neste emprego há 30 anos, e eu nunca tinha trabalhado com nenhuma criatura que causasse tanta comoção."

Espera-se que Jourdonnais, de algum jeito, arrume um lugar para os lobos em que recreação e subsistência se coadunem. Ele compreende que a caça de grandes animais no condado de Ravalli gera 11,2 milhões de dólares ao ano. Ele também vê os animais caçáveis perdendo o fundamental território nas invernadas para o loteamento imobiliário em todo o vale, e sabe muito bem que os únicos tópicos tão quentes quanto os lobos são planejamento e zoneamento.

Resumo da ópera? As taxas de sobrevivência dos animais caçáveis baixaram nos últimos dois ou três anos. Os lobos têm parte da culpa, mas o inverno também faz sua parte. No total, contudo, o número de cervos e alces ainda é bom.

Os grandes mamíferos estão aprendendo e mudando seu comportamento o tempo todo: cervos, alces, ursos, lobos e, claro, seres humanos. De nossa parte, parece que precisamos formular melhores respostas às questões colocadas pelo retorno dos lobos. Quando afirmamos querer a conservação das comunidades de animais selvagens, isso inclui os lobos ou não?

Mais fotos no endereço: http://viajeaqui.abril.com.br/nation....shtml?foto=0p

E um infográfico em: http://viajeaqui.abril.com.br/nation...os/index.shtml
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